Adaptações
A gente não tem como saber se vai dar certo.
Talvez lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá suco com um canudo enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato - pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito.
Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando, e o presente... quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude de um beijo e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.
Passos improvisados de tango e risadas no corredor da nossa casa. Uma festa cheia de amigos queridos celebrando algo que não saberemos direito o que é, mas que precisa ser celebrado. Abraços, pernilongos, respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar - eu me agarrando em você com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas - mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquario, um tatu bola na grama de um sítio, alguns cartões postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias na área de serviço. Então, numa manhã enquanto eu leio jornal na mesa do café, te verei escovando os dentes e andando pela casa, e saberei com a estranha certeza que surge das descobertas que sou feliz.
Talvez céu nublado e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncio onde deveria haver palavras , palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não.
Tudo que sabemos agora é que eu te quero e você me quer e temos todo tempo e espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte, quem sabe continue dando certo. Nada é fácil. Tampouco impossível. Mas existe essa centelha quase que palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mas sensato a fazer que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborracharemos. Talvez saiamos voando.
Não temos como saber se vai dar certo - o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pé do chão - e a vida não tem nenhum sentido se não for pra dar o salto.